Aumento da judicialização é preocupação das empresas (Foto: Pixabay)
Em 2026, a judicialização seguirá como uma das principais preocupações do ambiente corporativo brasileiro. Estimativas indicam que os tribunais do país recebem, anualmente, cerca de 24,6 milhões de novos processos, dos quais aproximadamente 5,1 milhões envolvem conflitos entre consumidores e empresas. Na prática, quase 20% das novas ações judiciais estão relacionadas às relações de consumo, evidenciando um cenário de litigância intensa, com impactos diretos sobre custos operacionais, reputação e planejamento financeiro das organizações.
Esse contexto se agrava diante de um ambiente regulatório mais rigoroso, maior cobrança por transparência e um cenário de elevado endividamento. Atualmente, o Brasil registra 75,7 milhões de consumidores inadimplentes, mais de 7,3 milhões de empresas negativadas, R$ 438 bilhões em dívidas de pessoas físicas e R$ 169,8 bilhões em dívidas de pessoas jurídicas.
Para a advogada Renata Belmonte, sócia do Albuquerque Melo Advogados na área de Contencioso Cível e especialista em Prevenção de Litígios e Recuperação de Créditos, a adoção de medidas preventivas deixou de ser opcional e passou a integrar o planejamento estratégico das empresas. Segundo ela, práticas voltadas à mitigação de riscos e à resolução antecipada de conflitos contribuem para a proteção da reputação, a redução de custos e maior previsibilidade orçamentária em um cenário econômico desafiador.
“A prevenção de litígios tornou-se uma questão de sobrevivência empresarial. Além dos custos diretos, disputas judiciais impactam a reputação e desviam recursos que poderiam ser investidos em inovação e crescimento. Incorporar a gestão de riscos jurídicos ao planejamento de 2026 é uma forma de garantir estabilidade e previsibilidade financeira”, afirma.
Canais de resolução
Diante desse cenário, a especialista aponta três práticas consideradas essenciais para as empresas que buscam reduzir riscos e o volume de litígios ao longo de 2026.
A primeira delas é o fortalecimento dos canais de resolução extrajudicial de conflitos. A recomendação é investir em atendimento especializado, capaz de resolver as demandas do consumidor assim que a empresa toma conhecimento do problema, com acolhimento, transparência, respeito e empatia. De acordo com Renata, além de contribuir para a fidelização e o fortalecimento da marca, esses canais fornecem informações estratégicas para ajustes operacionais, permitindo o tratamento dos problemas na causa raiz. “Empresas com canais ativos de conciliação reduzem o volume de processos e preservam a relação de confiança e transparência com o seu consumidor”, afirma.
Outra medida destacada é o treinamento das equipes para identificar e tratar potenciais conflitos. Falhas de comunicação e de atendimento estão entre as principais origens dos conflitos de consumo. A capacitação de profissionais de diferentes áreas, com foco em transparência e empatia, pode evitar que situações simples evoluam para disputas judiciais. “O jurídico não é o único responsável por prevenir litígios. Todas as áreas devem compreender os gatilhos de risco e agir antes que a situação escale”, ressalta a advogada.
Renata defende, ainda, a implementação de uma governança corporativa integrada. Nesse modelo, o departamento jurídico atua de forma alinhada às áreas comerciais, de crédito e de cobrança, deixando de ser apenas reativo e passando a atuar como parceiro estratégico do negócio. “Litígios devem ser vistos como risco transversal, que afeta caixa, imagem e performance. Quando jurídico atua em harmonia com as demais áreas de negócio, o resultado é uma governança mais sólida e sustentável”, pontua.
Tendências para 2026
Na avaliação da especialista, algumas tendências devem marcar o cenário jurídico empresarial ao longo de 2026. A expectativa é de intensificação das disputas de consumo, impulsionada pelo aumento da inadimplência e pela maior exposição digital das empresas. Paralelamente, a adoção de tecnologias jurídicas (Legal Techs) e o uso de inteligência de dados para monitoramento de riscos tendem a ganhar espaço, tornando os departamentos jurídicos mais estratégicos e preditivos.
Outro movimento esperado é a ampliação do uso de canais extrajudiciais para resolução de conflitos. “A empresa que investir agora em prevenção, tecnologia e capacitação terá vantagem competitiva no próximo ciclo econômico”, conclui Renata Belmonte.